A espetacularização da vilania - por Maurício Duarte

A espetacularização da vilania

 

É estranho e extremamente negativo o que se passa com a mídia em geral com relação a novelas, filmes, séries e mini-séries de entretenimento pop e de massa nessas narrativas de histórias com personagens maus, de uma maldade, às vezes, até absoluta e que parecem ter orgulho daquela espiritualidade e moral desvirtuadas e deturpadas até o limite final...

Filmes como Esquadrão Suicida, por exemplo, são o mais alto grau de “excelência” nesse sentido.  Suicid Squad, no original em inglês, narra as aventuras e desventuras do Coringa, inimigo do Batman, sua namorada, também super-vilã e de outros super-vilões que são abordados por um programa ultra-secreto e especial do governo federal norte-americano para utilização dos super-poderes de criminosos que queiram reduzir suas penas ou escapar da pena capital, caso sobrevivam nas missões suicidas, que ninguém quer, e que são destinadas a esses tais indivíduos “dispensáveis” aos olhos tanto da sociedade quanto do governo.

O tema e os personagens não são originais do filme; as histórias-em-quadrinhos da D.C. Comics já haviam popularizado o Esquadrão Suicida muito tempo antes.  Mas o que há de novo é a difusão, muito maior, do cinema que por si só, consegue um alcance enormemente mais amplo comparado com o pequeno nicho atual das HQs, que já foi bem maior nos tempos de ouro e prata dos quadrinhos.  Não tenho nada contra as histórias-em-quadrinhos, muito pelo contrário, aprecio muito.  Foi por causa das histórias-em-quadrinhos que comecei minha carreira como designer gráfico e ilustrador.  Também não desgosto do cinema.  Há inúmeras superproduções muito boas e também outras mais econômicas em ótimo nível.  Os anti-heróis das HQs e do cinema estão entre as melhores construções de personalidade de personagens da história das narrativas pop.  Mas o que se tem, muitas vezes, não é o aproveitamento dessa situação especial do anti-herói ou do próprio vilão – por mais que eu não goste, isto também é possível – para denunciar a maldade e a deformação da moral, da alma e do interior dos homens, mas uma espetacularização da vilania, porque nesse gênero, o anti-heroísmo, o tom da narrativa é tudo.  Por exemplo, personagens como Marv, de Frank Miller em Sin City, cidade do Pecado, é um quase um cânone em matéria de condução desse tema de maneira primorosa, porque alcança o cerne da questão sem se “engasgar com o próprio vômito”, mas antes, mostrando e denunciando claramente o absurdo da situação e o desespero das almas ali retratadas.  Num dos capítulos, no último aliás,  Marv é conduzido à cadeira elétrica.  E é um horror.  Tendo sido ligado o aparelho, por várias vezes, a força e a vitalidade do indivíduo altamente corpulento e musculoso, o fazem resistir e ele como último esforço vocifera: “HA, hA, HA HA! Isso é o máximo que vocês podem fazer, seus viados?”  E de novo é ligado o aparelho, onde finalmente ele morre.  Ora, isto, por si só, é a demonstração cabal do desespero total do personagem principal Marv, que é o anti-herói, que não é poupado pelo autor na situação absurda de crueldade tanto da sociedade para com o referido indivíduo condenado quanto dele mesmo para consigo próprio.  E isto é posto às claras, sem piedade.  Desse modo, não é possível escapar da feiura e da estranheza da situação, ao contrário, somos obrigados a enfrentá-la.  Diferente, totalmente diferente, das tentativas de transformar em um espetáculo o desfile de maldades puras e simples de muitos filmes e quadrinhos recentes ou antigos.  A rigor, a qualidade é qualidade seja qual for o tema tratado em arte, literatura, quadrinhos, cinema, novela, mini-série e demais formatos.

Assistir a uma exposição em que se exalta a vilania pura e simples é danoso à mente de qualquer um.  Mas é especialmente ruim para jovens em formação e/ou para mentes que já possuem uma tendência à atitudes antissociais ou criminosas. Não é entretenimento saudável, é uma deformação do entretenimento.  Portanto, é importante filtrar que tipo de atração audiovisual, pictográfica ou gráfico-visual nos dispomos a ver com ganhos em grande vantagem para nossa própria saúde mental, psicológica e espiritual.  Paz e luz.

 

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)

 

 

 

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